sexta-feira, julho 16, 2010

Desenhos de mim
Uma questão de nervos ou hábitos tresloucados?

Gosto de acreditar que todos temos uma severa pancada secreta que raramente se conta a alguém. Há quem lhe chame de “pequenos tiques” ou simplesmente pormenores sem grande importância, mas mesmo assim não se atrevem a contar a praticamente ninguém por receio que lhes chamem de louco/a.

Eu, como tenho consciência que já toda a gente reparou que faltam-me uma serie completa de parafusos no “cofre da massa supostamente cinzenta” não vejo grande problema em revelar as pancadas que tenho, ou que tinha até certo ponto, desde a minha infância. Há uns quantos que já me passaram, outros que não sei se alguma vez vão passar e outros que até vou tentando que me deixem em paz de vez.



Tenho a percepção que só tenho muitos desses tiques normalmente quando estou sem ninguém à volta. Lembro-me de um de infância particularmente, por ter sido relembrado pelo filme “As good as it gets”. O jardim em frente à minha casa tem chão em pedras mármore “coladas” por cimento – naquele tempo nem era o jardim, eram só alguns metros – e, tal como o personagem do Jack Nicholson, eu evitava pisar as falhas entre as pedras (onde havia apenas cimento). Houve uma altura em que essa pancada alastrou para fora das paredes do jardim e enquanto andava pelo passeio junto à estrada, seguia sempre por cima das pedras mais compridas que perfazem a berma do dito passeio e fazia por nunca pisar em duas dessas pedras ao mesmo tempo, ou seja, evitava pisar a parte onde duas dessas pedras se encontravam. O mesmo se passando pelas passadeiras, em que apenas pisava nas riscas brancas.

Outra pancada de infância – esta bastante condenável, da qual não tenho o mínimo orgulho, e se tivesse ideia na altura, nunca o teria feito - era jogar basebol com gafanhotos… naqueles tempos a minha aldeia era mesmo uma aldeia, com muito campo livre e, principalmente na Primavera, grupos de gafanhotos era coisa mais que habitual. Basta dizer que eu era o jogador de basebol com uma pequena cana na mão e os gafanhotos eram… a bola.

Lembro-me ainda de quando tinha 5 ou 6 anos e ficava a fazer de planificador para os carreiros de formigas, fazendo “estradas” para que estas as seguissem… e se não quisessem seguir a bem, arranjava maneira de elas não irem para o lado que escolhiam… ou pelo menos tentava.

Uma pancada bastante forte que tive, e esta inconscientemente ainda me persegue (mas sem grande sentido de “obrigatoriedade”) tem a ver com escadas. Tomei o hábito, talvez por volta dos meus 10 anos de idade, de subir e descer escadas de 2 em 2 degraus. Até aí nada de especialmente anormal. A pancada prende-se com o facto de, cada vez que me aparecia uma escadaria nova pela frente, eu tentar perceber com que pé acabaria as escadas, ao iniciar com determinado pé. O tique em si está numa certa necessidade de acabar o último degrau com o pé do lado da direcção que tenho de seguir. Ou seja, se ao sair das escadas tiver de virar à esquerda, termino com o pé esquerdo, e o inverso para o lado direito. Se com as escadas de casa isto já se passa sem pensar muito nisso, em escadas que não conheça, por vezes vejo-me a pensar com que pé fiz o primeiro degrau e com que pé termino… e por aí fora.

É como que ter uma vontade de ver uma certa ordem nas coisas, sob pena de se entrar num caos, numa anarquia revoltosa da qual não haverá maneira de sair. Por isso convém ter as coisas mais ou menos na ordem.
Esta é a única razão que encontro para o campo alimentar e todas as suas pequenas directrizes obrigatórias de seguir.

A refeição não sabe tão bem se o arroz/esparguete não for a primeira coisa a colocar no prato, seguido pelas batatas fritas e apenas depois a carne. E se houver molho, este só lá deve chegar depois de todos os elementos referidos já lá se encontrarem.
Se a refeição for peixe, este deve chegar ao prato só depois de lá se encontrarem as batatas (devidamente peladas, se for caso disso). Apenas nessa altura se tiram as espinhas, para no fim se colocar o delicioso fio de azeite (fio é uma maneira de dizer, que aquilo tem de ser mesmo uma coisa parecida com um banho de azeite).
Em qualquer dos casos (seja carne ou peixe) as três rodelas de tomate, com o devido sal grosso salpicado, devem ficar num recipiente à parte. Só vão para o prato se não ficarem em contacto com alimentos quentes ou com molhos, sob pena de serem comidos à pressa ou mesmo a ficarem no prato para toda a eternidade.


Nada de demasiado complicado, como se pode concluir deste quadro apenas parcial…

No fundo, no fundo… sou a pessoa mais normal que conheço.






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