quarta-feira, março 23, 2005

Porque existem décadas em que nos sentimos assim

O meu mundo

Vou para aqui
contando histórias do meu dia-a-dia,
e quando volto a lê-las
deparo-me com uma verdade
tão cruel e inexpugnavel
que nem parece deste mundo.
Vejo que o tempo e a vida
passaram por mim
de forma tão implacavel e insensível,
que não fui capaz de lhes tocar,
nem mesmo aflorar o seu aroma, que fosse.

Já faz muito tempo que baixei os braços,
que me deixei derrotar
pelo obvio e pelo obscuro,
e comecei mesmo a acreditar
que não há bosques verdes repletos de vida,
que o céu não é celeste
nem serve de lar às estrelas,
nem o mar banha gentilmente as praias,
nem as folhas vestem as calçadas nuas no outono
e nem o vento beija suavemente a face
de quem lhe faz frente.

Quero acreditar nisso tudo,
porque assim nada sería perfeito...
é assim que vejo este mundo...
tudo é demasiado perfeito
menos o meu próprio reflexo,
ou o reflexo do que faço,
e luto contra o dominio
da perfeição no meu mundo.
Cada vez que o tento fazer
perco mais um bocado de mim,
e, com o passar do tempo,
vou-me desfazendo um pouco mais
em batalhas perdidas à nascença...

Vou-me desfazendo um pouco mais,
até ao dia em que mais nada sobrar...
o dia em que os campos sejam verdes,
o céu resplandeça de azul,
albergando o brilho das etéreas estrelas,
as ondas acariciem a areia das praias,
as ruas se agasalhem de folhas no outono,
e o vento passe por nós
e beije a nossa face com a mesma paixão
com que o tempo se apaixona
pelos ponteiros de um relógio...
O dia em que alguém,
ao olhar a minha maneira de ser,
encontre um pingo de perfeição
do seu próprio mundo.

..........................Nelson Gonçalves




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