terça-feira, outubro 10, 2006

Sob um céu revoltado


Arrasto-me sobre os azulejos de mármore. Corto-me nas falhas que separam cada um, sinal notório de que não há caminhos sem espinhos.
Os azulejos são vaidosos por natureza, deixam-se maquilhar com o passar dos dias, meses, anos. Pintam-se com as marcas arredondadas feitas pelos sapatos de saltos altos, com as rugas que os grãos de areia fizeram quando foram arrastados pela sola de um qualquer pé. Exibem, orgulhosamente, a intemporal cicatriz profunda deixada pelo cair de um móvel que se fez transportar por ali.
Visto o relógio, para me prender ao tempo e assim não me perder do real. Por vezes aproveito para reparar no tempo que leva um determinado segundo a passar, enquanto um ponteiro maior que os outros se passeia de traço em traço, numa volta infinita, como se esperasse algum motivo que o fizesse parar... no tempo.
O frio mata-me a fome de ser vento. Não gosto, o frio prende-me as amarras ao chão e consome a vontade de me mexer. Este frio que teima em querer invadir o calor que guardo quase religiosamente dentro de mim, para o dia em que alguem o quiser tomar como o seu calor. E não é ao frio que me quero entregar.
Do vento tenho inveja. Inveja, porque não se importa se é quente ou frio, porque pode voar depressa ou devagar sem se preocupar com o que se passa em seu redor. Inveja porque pode voar. Inveja porque o passar do tempo não existe.
Inveja porque é realmente livre.





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