terça-feira, março 10, 2009

O bater no fundo de uma garrafa vazia



Tenho uma pancada especial para dar atenção às letras das músicas. Acho que uma música com uma boa letra consegue contar histórias de qualquer tipo, umas mais profundas outras que, apesar de não terem o mínimo interesse ainda assim conseguem dar um bom andamento a uma música boa.



Fim de tarde de mais um dia de trabalho. Mais um cansado e moribundo regresso a casa, por entre filas de carros e uma vontade de nem levantar a cabeça, corroído por dentro. A pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo, feito autómato no caminho de regresso a casa onde me espera o mesmo de sempre.
A pensar, no fundo, se deveria desviar-me dos carros que passam a meu lado, seja em sentido contrário, seja os loucos que me ultrapassam embrutecidos por uma velocidade imprudente, seja pelos turistas-do-domingo-eterno que cada vez que se aventuram a sair de carro para onde quer que seja, o carro dificilmente passará dos 25km/h. Volta e meia atravessa-se uma curva pelo caminho… questiono-me momentaneamente se devo seguir o seu serpentear, ou simplesmente seguir a direito. Que se perdia? Quem se perdia? Quem daria por isso? Quem daria alguma coisa por isso…? Talvez chorassem a perda de um carro em perfeito bom estado…

Volto à realidade a tempo de fazer o serpentear da curva… ainda não é desta. Para tentar esquecer o que me rodeia presto um pouco mais de atenção à musica que passa. Já sei as letras quase todas de cor, não fosse um CD com escolha feita por mim que está a passar incessantemente no meu carro. Costumo dizer que sem a música a tocar o meu carro recusa-se a andar.
Tenho tendência para parar em partes de certas músicas e tentar decifrar a intenção por detrás de determinada frase, tentando dar-lhe um significado que se calhar nunca teve, pelo meio de uma história que se calhar a letra da música nunca teve.

A musica dizia

And we're standing outside of this wonderland
Looking so bereaved and so bereft
Like a Bowery bum when he finally understands
The bottle's empty and there's nothing left

Pela minha cabeça não passava a ideia de um grupo qualquer de música, saído do bar decadente da noite de Londres onde haviam acabado de tocar, ao fim da noite e já depois de finalmente o dono do bar lhes ter pago pela actuação da noite.
A imagem que se formou na minha mente estava muito longe de ser essa. Via um náufrago, numa ilha deserta, uma minúscula ilha deserta. Com uma azul garrafa vazia com uma pequena lasca na sua base – insuficiente para comprometer a sua integridade interior - uma rolha à medida, uma única folha de papel e um pequeno pedaço de carvão.
Com o carvão, escreveu um pedido de socorro na única folha de papel que tinha, meteu-a na até então vazia garrafa, tapou-a cuidadosamente com a rolha, de modo a que ficasse bem estanque e a sua mensagem não se perdesse ao sabor da água salgada do oceano infindável que o circundava.

Lançou-a ao mar e esperou. E desesperou. E enlouqueceu de esperar. A noite conselheira trazia-lhe de volta alguma sanidade, aconselhado pela sabedoria da lua e a companhia das estrelas. Até que um dia a azul garrafa com a base lascada voltou à praia da ilha de onde havia sido lançada… sem papel… sem salvação… sem nada…

The bottle's empty and there's nothing left…




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