quarta-feira, abril 12, 2006

À deriva de um sonho


Hoje passei grande parte do tempo a pensar no passado... nos tempos de infância.
Não sei porquê, houve várias coisas, pequenos detalhes durante o dia que me fizeram pensar nesses tempos. Não havia preocupações, tinha-se tempo para se olhar para tudo, para a natureza e ver como as coisas são belas.
Onde eu vivo, a vizinhança mudou drásticamente. As amendoeiras praticamente desapareceram, e as que ainda sobrevivem com alguma dificuldade já não dão flor como antigamente. Já não produzem o espectacular manto branco da flor de amendoeira que cobria grandes espaços no Algarve. Os campos verdes que existiam nas redondezas deram lugar a prédios e umas quantas casas. Não vejo mais as borboletas, as papoilas, os gafanhotos, ou as margaridas que abundavam no principio da Primavera, nesses tempos.
Passou-me também pela cabeça as loucuras que se fazem quando se é criança, quando não se liga muito à consequência dos actos em si.
As paixonetas de escola, onde se coleccionavam “namoradas”, muitas delas sem saberem sequer que o eram.
Andar às escondidas atrás de uma rapariga, para lhe tirar uma fotografia com a máquina nova, mesmo que de um ângulo em que nem se percebesse quem é.
Telefonemas anónimos a gozar com a vizinhança e ficar a ouvi-los a gritar, do outro lado.
Os bilhetes secretos e anónimos para as raparigas. Trepar às àrvores, brincar aos cowboys (sim, quando ainda não era sinónimo de homossexualidade), fazer corridas de bicicletas, jogar ao quarto-escuro ou ao jogo de esconder.
Algumas dessas coisas não cheguei a fazer...
...nem sei porque me deu para lembrar-me disto, hoje.

Esta noite tive um sonho muito estranho, sei que era uma história muito completa e digna de um filme, e nem me lembro de quase nada. Só uma imagem do final ficou marcada na minha mente.

Um pequeno urso de peluche, a saltar de um carro em movimento, fugindo de um futuro de solidão e desprezo, porque a criança já não quer brincar com ele...

..ou um urso de peluche velho, jogado fora, porque já não serve os seus propósitos naquela familia?




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