segunda-feira, outubro 16, 2006

Ditado popular


Tremem-te as mãos e o ar falha-te nos pulmões. As forças fogem-te dos joelhos e um tambor imaginário não pára de te bombardear o cérebro. Entornaste o leite sobre a mesa da cozinha, que começa a pingar para o chão. Os pingos deixam-se lançar no precipicio e explodem ao primeiro contacto com os tacos de madeira. Bem podiam passar por sangue, não fossem estas gotas coloridas pelo branco alvo do leite. O sangue, por seu lado, teima em não jorrar das feridas invisiveis que te vão fazendo, quando não és tu quem as faz em ti.
Ninguém te decifra os gritos de desespero, porque a tua casa respira as ausencias de quem se fez partir por meio de pressas, quem nunca fez por ficar mais que um curto intervalo de tempo em que se repetiam os ultimos sons de um qualquer velho disco riscado. As borboletas que sentias no estomago não sabiam voar, mas sonhavam com o milagre de serem mais que simples lagartas que se arrastam até se fecharem em casulos, à espera que as asas nasçam. Alimentavam a eterna esperança vã da ilusão que se quer real e acabaram por ficar novamente presas ao chão, com o ultimo bater da porta de saída.
As mãos por vezes deixam de tremer, mas só nos pequenos instantes em que passam pela testa, quando os braços estão cruzados e te contorces de raiva ou quando servem de descanso a uma cabeça demasiado cansada de tentar andar erguida. E tu aí nessa cadeira a ver o leite a pingar, sem reacção, sem sequer perder tempo para pensar nisso.
A casa fica demasiado vazia assim, e assim continuará, cada vez mais vazia e cada vez mais labirintica. Ninguem te lê as lágrimas que correm desenfreadas pela face, ninguem te adivinha os pensamentos que acorrem alucinantes à mente. E as lágrimas, essas... diluem-se no leite derramado no chão e ninguem se lembrará delas, a não ser tu. O velho e popular choro sobre leite derramado. O ditado não tem tanto significado quando as lágrimas nada têm que ver com o leite em si.

Arruma-te. Limpa a sujidade em tua volta e a vergonha que te provocas em ti e que te enfeita a cara. Sai para a rua e dá-te ao luxo de comer o teu bolo preferido. Senta-te na tua esplanada predilecta e lê um qualquer livro, por mais reles que seja, mesmo que não tenhas mais companhia para te prender a vontade de viver.
Só porque não é um bom dia para sobreviver não quer dizer que não se viva um pouco que seja.


Nota: quero dedicar este texto à existencia da palavra ficção.




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