quinta-feira, março 31, 2011

Estojo de lata

Todos os dias apanhavam o mesmo autocarro, ela para a universidade e ele para o trabalho, separados por duas paragens: primeiro entrava ele, procurava os lugares de quatro cadeiras com duas frente-a-frente. Escolhia as da frente, viradas para a traseira do autocarro, pensando que ela preferia olhar para a estrada que o condutor seguia religiosamente, todos os dias; depois entrava ela, sentando-se invariavelmente no banco em frente a ele sem nunca trocarem uma palavra e saia duas paragens antes dele.

Era uma carreira pouco concorrida, as poucas pessoas que ali passavam eram maioritariamente estudantes que - tal como ela - se dirigiam para a universidade e que invariavelmente se sentavam nas últimas filas do autocarro, e assim aqueles quatro lugares pareciam estar sempre reservados para aquelas duas criaturas, como se fosse um sinal do destino que ambos pareciam não se esforçar por tornar real.

Ao chegar à paragem da universidade ela levantava-se devagar mas sempre a tentar não dar muito nas vistas, cabisbaixa e olhava de relance, sem disfarçar um ligeiro sorriso. Ele, olhando também pelo canto do olho, consumido pelo facto dela ir embora sem que lhe tivesse dito nada, sorria de volta discretamente enquanto baixava a cabeça, corado de timidez e frustração.





E assim foi, durante meses a fio, sem se trocar uma palavra que fosse… até um dia.

O céu estava nublado há vários dias, a ameaçar uma chuva que não tinha pressa de se fazer notar. Para ele era apenas mais um dia, sentado na sua cadeira cor de laranja, ainda se instalando, enquanto chegava a paragem em que ela entraria. Ajeitou a pasta, presa entre a perna e a parte lateral do autocarro, por baixo da janela que tantas vezes tinha servido de refúgio, quando não conseguia olhar mais para ela sem dar demasiado nas vistas.

Ela entrou, sentou-se e, inadvertidamente, deixou cair um estojo de canetas vermelho, em lata, cujo estrondo não foi suficiente para que os restantes poucos passageiros prestassem atenção. Num rápido impulso, ele apanhou o estojo de lata e estendeu a mão para lho entregar. Sem hesitar, ela agarrou o estojo prendendo também a mão dele. Fez uma ligeira pressão, como que a chamar a atenção dele e quando ele sentiu, olhou para ela.

- “Não dizes nada?” perguntou ela.

- “Não.” respondeu ele com um sorriso.

- “E assim como é que eu sei que não és apenas um louco que me persegue todos os dias?” disparou ela sem medir bem as palavras que dizia.

- “Então só me restava dizer-te que não, e ficar na esperança de que acreditasses em mim…”

- “Não sei se isso será suficiente para mim.” disse ela demonstrando um ligeiro desencanto.

- “Pois… depende só de ti”.

- “Pensei que as coisas fossem correr de forma diferente… tens uma palavra para me convencer.” disse ela, em forma de ultimato, ainda sem largar o estojo de lata e a mão dele.

- “Não quero.” ripostou ele, sem mostrar o mínimo de duvidas.

- “Não…?”

- “Não quero palavra nenhuma para te convencer… que palavra poderia eu dizer? Maravilhosa? Linda? Perfeita? Divina? Não, não quero dizer-te uma palavra para te convencer, porque as palavras não fazem justiça. Um dia, daqui a uns tempos, numa única palavra vou dizer-te que amo-te e vou ter a certeza que essa palavra não é suficiente para dizer o que sentirei por ti… de que me serve uma palavra, então?”

Ela parou por uns instantes, a olhar para ele, sem reacção.

Chegam à paragem da universidade e os estudantes da fila de trás começam a levantar-se. Ela puxa o estojo de lata para si, juntando-o aos cadernos que leva, enquanto se levanta para sair, sem nunca deixar de olhar para ele. Dá dois passos em direcção à porta de saída, quando ele diz:

- “…mas gostava que me desses o teu numero de telemóvel.”

Ela estremece e pára por um instante… dá um passo atrás, debruça-se sobre ele enquanto lhe põe a mão gentilmente sob o queixo, dando-lhe um beijo na face… e diz-lhe baixinho ao ouvido:

- “Já o tens, apenas não deste por isso, ainda.”

Ela parte, olhando para trás e piscando-lhe o olho ao mesmo tempo que sorri de felicidade. Ele fica confuso, sem querer acreditar no que tinha acabado de acontecer. Baixa a cabeça, enquanto franze o sobrolho, sorri e abana a cabeça em descrédito.

E é nesse instante que repara, ali na palma da sua mão direita, a mão com que tinha apanhado o estojo de lata, a seguinte mensagem que ficou impressa:

555-…




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