sexta-feira, abril 24, 2009

Eu sei que deveria meter um titulo, mas tenho andado sem imaginação nenhuma...

A noite era abafada e a sala limitava-se a respirar quatro pequenas velas que resistiam à escuridão, colocadas cirurgicamente, como se fossem os cantos de uma esquadria no tampo da mesa. Ao fundo soltava-se, quase imperceptível, o melancólico e calmante som dos Portishead. Tão baixo que a voz melodiosa de Beth Gibbons não conseguia interromper a nossa conversa.

Fazia-se tarde.
A noite avançava de forma inapelável, por muito que a quisesse impedir. As velas iam mantendo a temperatura da conversa, e a garrafa de vinho que se esvaziava lentamente ia servindo de combustível para o queimar da chama. Esse mesmo vinho por vezes parecia querer aquecer a conversa, mas que a escuridão em volta impedia que esta alcançasse temperaturas sem retorno… impedia que a sala pegasse fogo, sob a forma de dois corpos entrelaçados.

Ainda tinha alguma dificuldade em acreditar que estavas ali, à minha frente, a sorrir. E pouco me importava com o que se passava lá fora. A musica seguia maravilhosa, e o teu rosto perfeito iluminado a meia-luz fazia esquecer tudo o resto. Aquele pequeno e efémero momento era o que iria perdurar na minha memória… aquele sorriso que permaneceu desenhado na tua face após uma gargalhada que não conseguiste disfarçar... que te esqueceste de disfarçar…

E eu não consegui esconder o sorriso pateta que me provocaste, ao mesmo tempo que te despia com a mente, que te beijava com os olhos, que te acariciava com as palavras… e tudo era tão normal, como se tivéssemos sido feitos assim, para nos sorrirmos um ao outro.
E os sorrisos, esse sinal universal de felicidade – mesmo que extemporânea – faziam-se eternos, tomavam a sua forma mais completa e nunca mais seriam desfeitos…

As palavras…
…as palavras mais não seriam que um momentâneo artefacto, usado de tempos a tempos, com um único e bem definido objectivo: viver um momento de cada vez sem dar importância a mais nada.
Como se tivéssemos nascido para que o passar do tempo fizesse sentido naquele lugar, naquele nosso pequeno mundo ali montado.


Tinha prometido a mim mesmo, vezes sem conta, que ia cuidar mais de mim, que ia ter mais cuidado comigo. Durante semanas, meses, fui construindo defesas e barreiras para me precaver, para me defender da derrocada inevitável que viria um dia a acontecer. E durante esse tempo prometi que não escreveria novamente sobre ti, não que não sejas merecedora de tal devoção – e sim, a minha devoção a ti é completa, sobre isso nunca tive duvidas… - mas, se deixasse de escrever sobre ti, talvez facilitasse a tarefa à qual me tinha obrigado.

Agora vejo as defesas caírem, umas atrás de outras, e não encontro maneira de o impedir. Vejo as barreiras a ruírem como um castelo de areia invadido pela inapelável força da maré e não passo de uma criança que chora o desaparecer do seu castelo, enquanto me tentam explicar que posso sempre construir outro igual, ou outro melhor... porque a maré há-de sempre subir e descer… e que, enquanto houver vontade e querer, os castelos erguer-se-ão… uns atrás dos outros…

Agora as lâmpadas não se acendem e as velas consumiram-se até ao esgotar do oxigénio… …agora a escuridão venceu e prevalece intransponível…
…e mesmo assim, no escuro breu da noite eterna que me persegue, ainda espero encontrar de novo o teu sorriso.




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