quarta-feira, junho 17, 2009

Rastilho

A luz entrava por entre as persianas mal fechadas, numa tentativa de esquartejar os olhos, sem dó nem piedade. Uma enorme turba de sons irracionais irrompiam da rua, pela casa adentro, como se tentassem entrar todos de uma vez, fazendo lembrar os efeitos especiais dos filmes de cinema onde aparecem animais pré-históricos e cujos sons são impossíveis de identificar. E isto tudo misturando-se dentro da cabeça, ainda meio a andar às voltas, invadindo os sentidos, alojando-se no crânio fazendo trajectórias em velocidades alucinantes, lutando para expandir aquele espaço exíguo para limites que não podia conquistar, a partir de dentro.

A respiração, essa era dificultada por gemidos de dor e agonia que se atiram à atmosfera, sem o consentimento de um corpo que quer adormecer sem hora definida para acordar. O leito não era mais que um simples e gasto sofá estranho àquele corpo, numa divisão com dimensões diferentes daquelas a que está habituado a ver no seu dia-a-dia.

Um pequeno arrepio que lhe percorre o corpo de cima a baixo - causado pelo facto de dar-se conta que não sabe onde está, nem se lembrar como foi ali parar – depressa se desvanece, pela falta de forças, levando o corpo de volta à letargia que lhe tolda os movimentos. O barulho e as luzes continuam a impedi-lo de adormecer, mas o corpo recusa-se a levantar-se para fechar as persianas ou mesmo tapar os ouvidos…
Onde estaria? Que lugar era aquele?

Finalmente, e a muito custo levanta-se. Repara que estranhamente está sem roupa, olha em volta e toma nota dos limites e alguns detalhes daquela divisão da casa… uma sala de estar. Passa pelo hall de entrada. De um lado uma cozinha mal arrumada, do outro uma porta que parece ser da saída… está nu, por isso não se aventura, ainda… percorre um corredor, à direita uma casa de banho que não lhe parece estranha de todo. Mais à frente uma porta semi-aberta para um quarto meio escuro. Também ali as persianas ficaram mal fechadas e alguns raios de luz teimavam em tomar posse daquele espaço.



Abre um pouco a porta, devagar. Na cama, uma mulher deitada de barriga para baixo, com o tronco nu e um lençol a tapar-lhe as pernas até à cintura, indiciando também a sua nudez.
Quem seria aquela mulher? E porque estaria ele ali, naquela casa?

Num ligeiro sobressalto, ela volta a cabeça a custo, coloca a mão sobre a testa, desviando algum do cabelo que lhe cobre a cara e revelando algum esforço e desconforto, como se os sons a tivessem invadido também e num pequeno esgar para manter os olhos o mais fechados possível, diz:

- Demoraste tanto… deste bem com a casa de banho…? Volta para a cama…


nota da redacção: antes que fiquem com ideias e comecem a especular, apesar de o inicio desta short-story ter sido baseado em alguns - pequenos - factos reais, devo dizer que metade da história é ficticia, outra metade não é verdade e a outra metade fui eu que inventei (tal como o resto da historieta).




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