segunda-feira, novembro 17, 2008

A caixa de madeira

Quando começa a trajectória descendente de uma vida, normalmente há uma tendência para revisitar o passado mais distante, dos tempos de infância onde tudo parecia ser feito de sonho e imaginação.
Somos levados a sítios que pensávamos já não existir, ou que simplesmente apagámos da nossa memória, por terem ficado para trás ou por nos termos mudado de sítio, de companhias ou de pensamentos. Ocupamo-nos com outras coisas e encostamos esses sítios e essas memórias a um canto da nossa mente, e ali ficam, intocáveis durante décadas, à espera do momento em que dá a sensação que necessitamos de nos despedir do que somos e fomos e do que fez de nós aquilo que conseguimos atingir ao longo dos anos.
Voltei a alguns desses caminhos longínquos, que havia deixado abandonados há muitos anos atrás. Alguns desses sítios já são difíceis de identificar, tal foi a mudança que sofreram. Outros continuam intactos, talvez um pouco mais velhos, mais gastos… como eu.


Reencontrei o velho edifício em obras, nas traseiras do qual nos refugiámos muitas vezes, eu e tu. Curiosamente continua igual, ainda em obras. Obras que nunca avançaram, desde aquele tempo. Um esqueleto de edifício, em dois andares, que pouco mais tem que tijolos, cimento e armações em ferro, despido de qualquer tratamento de embelezamento que seja. Apenas algumas heras e musgos que se foram apoderando das suas paredes, nos cantos mais húmidos.
Nas traseiras daquele edificio - que no fundo não passou de ruinas inacabadas - o nosso esconderijo preferido, a pouco metros do bosque que atravessávamos para chegar ao parque infantil que fazia vizinhança à igreja. O bosque onde imaginámos historias sem fim e perigos mil.
Éramos crianças inocentes à descoberta de um mundo que nos rodeava sem problemas de maior.

Agora, passados estes anos todos, voltei aos caminhos perdidos da infância distante. Vi como o parque infantil está degradado e entregue ao abandono, como se mais ninguém lá tivesse ido desde que nós lá estivemos pela última vez. Verifiquei que o gigantesco bosque que demorávamos tempos imensos a atravessar, no meio das nossas descobertas, afinal não era mais que um pequeno aglomerado de árvores que se atravessa em pouco mais de 5 minutos. E cheguei às traseiras do edifício que estava em construção… que deixámos em perpétuas ruínas. E encontrei o nosso canto preferido, aquele canto que era só nosso, onde enterrámos uma caixa para abrir um dia mais tarde com as nossas lembranças.
Sentei-me, encostado à parede do edifício, retirei a terra que se aconchegava aos cantos da nossa caixa de lembranças e abri-a. Nela encontrei o fio que usavas ao pescoço e lá tinhas deixado, bem como o botão do casaco que arranquei, para juntar ao momento.
E encontrei uma fotografia que tirámos, num fim de tarde na feira, só nós os dois dentro da cabine…
…encontrei o meu primeiro beijo.




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