quinta-feira, maio 23, 2013

No templo dos ciprestes



(texto com alguns anos, resgatado do fundo da gaveta para finalmente ver a luz do dia)

Deitado, inerte e imóvel me deixo ficar, debaixo destas árvores.
Disseram-me em tempos que são ciprestes, as arvores que vulgarmente são usadas em muitos cemitérios por esse mundo fora.
Compreendo o porquê de gostarem tanto de usar essas árvores nesses locais: a sua forma cónica faz parecer que estão a apontar para cima, como que indicando o caminho para o céu imaculado e paradisíaco que espera as almas nobres, quando estas se finam…

Desenganem-se.
O céu… o céu pertence aos pássaros, aos aviões e naves espaciais, aos planetas e às estrelas. O céu…
Para além disso apenas serve para alimentar os sonhos irreais de quem passa demasiado tempo acordado a pensar “como será, se…”, “o que teria sido, se…” ou “como seria, se…”.  
O céu alimenta-se de se’s, sejam eles presente, passado ou futuro, devora-nos o tempo que passou e queima-nos o tempo que está para vir, reduzindo a pó os sonhos que teimamos em fazer acordados, enquanto ele próprio se enfeita de estrelas reluzentes, planetas distantes que nunca visitaremos e utopias… o céu...

Deitado, debaixo destas árvores, onde o sol nunca me chegará.
Inerte, seis palmos debaixo da terra, não se reencontra com ninguém do nosso passado.
Apenas o vazio que se vai apoderando aos poucos de uma alma que não se apaga, de uma memória que perdura quando já não devia e que relembra uma velha invenção humana - que alguém decidiu chamar de “segundos” – ao ritmo da batida imaginada de um coração que há muito se calou.

Não, não fui para o céu e o meu inferno pessoal foi ficar nesta espera eterna por algo que nos foi vendido à nascença, nesta espera de quem em tempos acreditou que o céu nos acolherá no nosso descanso, os de alma nobre…

Alma nobre?…mais valia ser louco. Mais valia… inerte mas louco.
O tempo sempre passaria mais depressa, neste inferno feito espera que nunca terá fim.

O céu…? Não me lixem.




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