sexta-feira, setembro 15, 2006

Não suporto o barulho da esferovite

A noite estava a chegar ao fim. No sitio do costume bebia-se até ao fundo dos copos, onde as sinas se deixam escrever para quem as sabe ler.
Nunca a tinha visto assim, no meio da habitual confusão mundana que os rodeava, com o cigarro a tremer-lhe na mão e uma lágrima revoltada a escorregar-lhe pela face. E ele não se conseguiu conter mais.
Chegou perto dela, agarrou-lhe na mão que ela tinha livre, colocou a outra mão sobre o ombro dela e suspirou um “Olá”.
Ela olhou para ele, com os olhos vermelhos de quem tenta prender uma tempestade de revoltas, em vez de as soltar livremente num choro sentido. “Desculpa...”, disse.
Antes que ela completasse a frase, ele interrompeu-a para que não caíssem no erro de dar demasiada importancia a palavras que nunca a teriam. Nem no erro de fazer demasiadas perguntas desnecessárias.
Foge comigo amanhã, de manhã. Apanhamos o barco e vamos por aí, à descoberta do nosso mundo, fazendo o nosso caminho e construindo a nossa própria felicidade. Longe deste lugar de infortunios e desgraças. Amanhã, às 9:15 no cais... Espero por ti.”, disse ele.
Ela ficou impavida, imóvel como só uma estatua sabe ser, surpreendida por aquele pedido tão repentino. Ele afastou-se, sem dizer mais nada e sem desviar o olhar dela, e foi embora enquanto ela, com a ponta dos dedos, travava a lágrima que lhe percorria a face.

Na manhã seguinte lá estava ele, com aspecto de louco. Mal tinha dormido, a pensar que ela acedesse ao seu pedido. E também a morrer de medo que ela não o fizesse... Nem se tinha arranjado minimamente, com receio de não chegar ao cais a tempo e que ela tivesse estado lá sua espera e tivesse desistido por ele não aparecer à hora combinada.
Ele tinha uma simples mochila nas costas com pouca coisa que levar. Afinal a unica coisa que lhe importava levar dali era ela, daquele mundo que a maltratava, que a feria... daquele mundo que também o ignorava desde sempre.
Aproximava-se a hora do barco e nada. Sabia que tinha passado muito pouco tempo desde que fizera o convite, e que o cansaço a pudesse levar a não acordar a tempo. No entanto não deixava de estar ali, à espera dela, enquanto um e outro cigarro se ia consumindo na ponta dos seus dedos. É incrivel a velocidade com que os cigarros se desfazem em cinza, enquanto se espera por algo ansiosamente. Quase não lhes tocava com os lábios, sequiosos por a quererem ver aparecer lá ao fundo, ao virar da esquina.
Eram 9:27 e o barco não esperou mais... e partiu, deixando-o ali, prostrado à evidencia de que ela não estava lá. Ali se deixou ficar mais uns minutos, não muitos. Apagou o ultimo cigarro. Naquele instante deixaria de fumar, prometera a si mesmo.
Apontou os olhos ao chão, soltando todo o seu desalento ao vento e lá foi de volta a casa. Deu alguns passos, deixando para trás o cais.

Temos de ir de barco? Quando é o próximo?”, disse uma voz conhecida, por trás de si.
Virou-se o mais depressa que pôde. Ali estava ela, com a face corada de vergonha, mas com um sorriso capaz de fazer crescer uma floresta no mais seco deserto do mundo.
Não, não temos de ir de barco.” , respondeu contente por vê-la.
Ainda bem, enjoo com alguma facilidade.
Com a mão esquerda ele pegou-lhe na mão direita e foram em direcção à estação dos comboios.
Enquanto caminhavam, ela olhou para ele e perguntou, ainda com o seu melhor sorriso vestido:
Como te chamas?





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