domingo, julho 08, 2007

Sinapses adiadas


A luz forte do sol teimava em querer invadir o quarto, através de uma persiana que ficou esquecida, mas que se queria fechada, para não denunciar os monstros escondidos, manhã adentro.
Num velho caderno as palavras iam tomando forma e as frases faziam-se nascer, à medida que a caneta se fazia mover, nervosamente.
“Ainda bem que me fugiste”, escrevia ele.
“Ainda bem que não és tu, aqui deitada a meu lado. Acho que não suportaria ver a desilusão estampada na tua cara, ao acordares ao meu lado, na minha cama, com o aroma a sexo ainda a perdurar no ar e a sensação das minhas mãos na tua carne... e a tua desilusão devastar-me-ía por completo.”
Nisto a rapariga a seu lado acordou. Sentou-se na cama e olhou em frente, para o espelho, onde se viu. Horrorizada por estar ali, sem roupa, no quarto de um completo desconhecido que parecia tirar notas de uma noite de sexo inconsequente e sem significado algum.
Dois corpos nus de vergonha, no espaço exíguo de um pequeno quarto mal arrumado e mal tratado.
Ela vestiu-se à pressa, sem levantar a cabeça, enquanto ele continuava a escrever, como se não se passasse nada fora do normal. Sem cruzarem olhares ou uma palavra que fosse.
Ela saiu. Nunca mais se viram. Ele continuou a escrever...
“Ainda bem que não eras tu a sair por aquela porta, em silêncio... matar-me-ías mais um bocado... mais uma vez...”




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