quarta-feira, novembro 15, 2006

Evitar a palavra "adeus"


“Acabou. Não me perguntes porquê... Não me faças perguntas, detestava ter de te mentir mais uma vez...”
Lançaste-me assim esse infalivel punhal, por entre tremores de queixo e olhares fixos, umas vezes no chão, outras no longinquo horizonte que aquela praia vazia de inverno oferecia.
Uma forte rajada de vento entrou pela minha cabeça a ali parecia ter-se alojado para sempre, num rodopio imenso que me impedia de formular ideias, razões ou até articular palavras que fizessem sentido para que a nossa relação não sucumbisse. Afinal de contas estava destinado a terminar - sempre o disseste e só eu não o quis acreditar.
Juntei algumas palavras, na sua maioria a formularem perguntas, para tentar perceber o porquê, mas não as soltei, não sei se por respeito ao teu pedido ou se com medo das respostas que poderia ouvir. As palavras pareciam agora embater numa barreira intransponivel, impedindo-as de se fazerem ouvir.
Finalmente reuni algumas forças para levantar a cabeça e olhar para ti. Nem por um momento te viraste para mim ou tiraste os olhos do infinito horizonte onde parecias querer desaparecer. Ainda assim foi visivel uma lágrima que te percorrera a face e, junto ao queixo, preparava-se para se lançar sem pudor ao ar livre, na esperança de encontrar uma mão salvadora que a impedisse de se desfazer definitivamente na areia.
A agonia apertou-me ainda mais o peito, que por si só já não sabia que fazer para sobreviver. Aquela lágrima fez-me ter a certeza que também não era fácil para ti, mas que também era culpa minha o estado a que as coisas tinham chegado.
Deste meia volta, sem me olhar uma ultima vez, sem dizer uma ultima palavra. A maneira mais facil de guardar as outras lagrimas que certamente clamavam por liberdade. E partiste, talvez para sempre.
Eu... ali fiquei, só, como tinha de ser, como me tinhas destinado a ser.
A chorar as ondas daquele mar que já nada de belo tinha, pelo menos naquele momento. A suspirar as rajadas de vento que faziam questão de fustigar-me a face, enregelar-me a pele, consumir-me a carne e empedernir-me os ossos... a gelar-me o coração.

Nota 1: de todas as vezes que me deram com os pés, apenas uma dessas vezes ocorreu junto a uma praia, há uns anos, mas este post não quer de forma nenhuma retratar esse episódio. Isto tudo para dizer o quê? Apenas que o texto é puramente ficticio e nada tem a ver com algum episódio que se tenha passado comigo.

Nota 2: o texto de ontem tratava-se realmente de uma viagem ao cabo de S. Vicente, em Sagres. Uma viagem puramente ficticia, visto que não vou lá há muito tempo (e também nunca fui nem a conduzir, nem sózinho).




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