terça-feira, outubro 31, 2006

Finais felizes...
...quem não quer?
(o final que ninguem tinha visto ainda)

Pois bem.
Acharam que o final que a história era triste. Por alguma razão eu tinha colocado a ultima nota, no post. O mundo não é cor-de-rosa, nem jardins floridos. A vida é feita de tons cinzas, com muito preto-e-branco à mistura.
O resto do texto, que na altura deixei guardado para mim, fica agora aqui para que possam ler (se quiserem, evidentemente) e insultarem-me à vontade, no fim (é para isso que a caixa de comentários existe).



(...continuação)
Ali ficou até anoitecer.
Ela nunca apareceu...

Quando se separaram na noite anterior, ela sentia-se mais leve que uma pena, sentia-se capaz de caminhar sobre a água, se tal fosse preciso. Sentia uma leveza que parecia que cada passo que dava a levava vários andares acima do nivel do chão. Olhava para o céu como se este estivesse ali, ao alcance de um esticar do braço.
Sem dar por nada viu-se a atravessar uma estrada a caminho de casa e, de repente, sem se saber de onde, a luz de dois farois a virem ao seu encontro a uma velocidade alucinante.
Ali deitada e imovel, no frio alcatrão encharcado da chuva da tarde, num ultimo fôlego ainda suspirou: “...como...te...chamas....?”

Ele, no mais profundo desconhecimento do que tinha sucedido, no dia seguinte esperou até desesperar. Cansou-se de esperar que o sonho impossivel se tornasse realidade e deixou-se vencer pela raiva de se achar de novo enganado.
A flor que tinha, deixou-a morrer nas suas mãos, antes que caisse indefesa até ao chão. Quando, à beira mar e a meio dessa noite, contou as ondas do mar como se fossem todas a vezes que se havia sentido enganado por amor, soltou um estridente e enlouquecido grito por onde fugiram todos os beijos que tinha guardados para ela.
E partiu, sem tomar o rumo de casa. Sem se importar se ía para Este, Oeste, Norte ou Sul. Caminhou apenas na direcção que lhe levava o velho caminho de ferro, sem saber nem onde nem quando parar.
E quando no horizonte começou a clarear uma forte luz de forma avassaladora, abriu os braços, olhou as estrelas onde viu a face dela por uma ultima vez, e deixou-se entregar de peito aberto ao destino daquele comboio, sem o mais pequeno dos remorsos, sem a minima piedade.

Há quem diga que ficaram juntos, para sempre...
Há tambem quem diga que a locomotiva carrega o seu coração para onde quer que vá, e quando o comboio passa por aquele sitio, apita como se fosse um coração a gritar por redenção...


Agora pode-se escrever "The End".
Era isto. Não digam que não foram avisados.




segunda-feira, outubro 30, 2006

Quinta-feira passada

...fui a Lisboa. Concerto dos Muse, no Campo Pequeno. Das poucas maneiras de me fazer entrar num sitio onde se realizam actividades barbaricas como são as touradas. Outras actividades barbáricas são concertos, mas por razões completamente diferentes.

Como não tenho muito jeito para escrever, aqui ficam excertos de dois artigos sobre o concerto (com links para os artigos completos, para quem quiser ler).

As duas horas de concerto passaram com a força de um furacão, num ritmo frenético semelhante àquele com que Matthew Bellamy, Dominic Howard e Chris Wolstenholme trucidaram o palco. Sem grandes conversas, porque o povo queria era mesmo levar as mãos à cabeça, puxar cabelos, gesticular ensandecidamente e saltar como se o chão queimasse (...)

,in www.rascunho.net



Se a natureza dos buracos negros permanece um mistério, os Muse deram ontem, no Campo Pequeno, uma pista: uma concentração rara de energia, um universo em uníssono, um mundo à parte onde se quer permanecer tanto tempo quanto possível. É que, lá dentro, há canções e imagens capazes de sugar a atenção de todos os viajantes que – não por acaso – ali aterraram.
(...)
Tarefa complicada, esta de voltar à terra quando o corpo ainda está de olhar no palco, esperançoso e siderado, a pedir mais uma voltinha no universo Muse.

, in Publico


O alinhamento do concerto foi o seguinte:
Take a Bow
Hysteria
Map of the Problematique
Butterflies and Hurricanes
New Born
City of Delusion
Plug in Baby
Forced In
Bliss
Apocalypse Please
Hoodoo
Invincible
Supermassive Black Hole
Starlight
Time is Running Out
Stockholm Syndrome
Citizen Erased
Muscle Museum
I Want To Break Free (Riff)
Knights of Cydonia

Acho que está tudo dito.
Deixo apenas um dos pequenos filmes que fiz durante o concerto. Quem quiser ver os outros que fiz pode encontrá-los aqui, no meu perfil do youtube, bem como fotos que eu tirei do concerto, no meu Flickr. Se estiverem interessados, podem também procurar por outras filmagens deste mesmo concerto. Eu já o fiz e há umas mesmo muito boas com musicas completas, que mostram bem o ambiente que se viveu lá dentro.





sexta-feira, outubro 27, 2006

Finais felizes...
...quem não quer?


(este é bem comprido... se os outros já ninguém tinha pachorra para ler até ao fim, este então ninguem passa do primeiro parágrafo)

O bar estava cheio, como de costume em vésperas de fim-de-semana, com muitas das habituais caras, mais uma ou outra cara desconhecida e com as enormes núvens de fumo que o caracterizam, em noites destas.

Ele já não tinha grandes forças para continuar a viver assim, e ainda ía na primeira bebida... coisa que não costumava acontecer. Por norma, só costumava queixar-se de si próprio e da vida que levava mais tarde na noite, quando o álcool lhe começava a subir à cabeça e o mundo parecia um barco em mar revolto, numa qualquer noite de tempestade como parecia ser aquela.
Ali ficou, a remoer a sua existência, até ao momento em que a viu a dançar no meio da pista, qual sereia à entrada do porto de Copenhaga, qual serpente que hipnotisa a sua presa, à espera do momento certo para atacar. Uma beleza capaz de fazer suspirar um defunto, como se tal fosse possivel. E, curiosamente, era como ele se sentia, moribundo...


Largou o licor beirão com sumo de limão, ainda nem metade tinha bebido, e dirigiu-se para a pista de dança. Nunca tinha sido visto naquela pista de dança, não era seu habito, até detestava por achar que não tinha jeito para aquelas andanças.
Chegou-se perto dela, entrou no ritmo e deu-lhe um ligeiro toque na anca. Ela acusou o toque e sorriu. Ele não se fez rogado e foi-se chegando aos poucos, até estarem a uma distancia que inpedia a mais ténue corrente de ar de passar.

Pôs uma mão à volta da cintura dela e ali estavam, frente a frente, corpos colados, mãos nas ancas um do outro, dois corpos que pareciam um só, a dançarem a um ritmo que parecia praticado durante anos, como se conhecessem cada centimetro do corpo um do outro e antevessem o próximo movimento a seguir.
Ele fez uma caricia na angelical face dela, que nem sabe se agora avermelhada do calor que sente subir pelos dois corpos ou se do calor de tanta gente dentro do bar.
Com o indicador da mesma mão ele começa a percorrer lentamente a face dela, passando pela ponta do nariz mais lindo que o de Cleopatra, pelos lábios que clamam por atenção, pelo queixo esculpido em perfeição, pelo pescoço doce e suáve como nenhum outro, chegando ao centro do peito onde acaba o fio reluzente que ela ostenta em volta do pescoço. O mesmo peito que alberga um coração em nítida aceleração de extase, como que antevendo o prazer de ser tomada como uma princesa merece ser.

Ela tenta chegar-se a ele, na esperança de um beijo pelo qual há muito os lábios gritam em silêncio. Nesse instante ele faz um pouco de força com o dedo, afastando-a. Ela fica apreensiva, deixando-se abater.
Enganou-se... ou sente-se enganada...

De repente o indicador desprende-se do peito dela, e essa mesma mão agarra-a pela mão. Com um pequeno puxão faz ela rodopear sobre si própria, e quando ela acaba a volta de 360 graus estão de novo colados um no outro. Ela já não sabe onde tem os pés, se no chão se no céu. Ele ampara-a agarrando-a pela cintura. Ela como que faz um nó em volta do pescoço dele, para não cair daquelas alturas a que ele a levou, mas também na esperança de que ele não se afaste.
Beijaram-se... e a musica parou.

Aquilo que para os comuns mortais durou poucos segundos, para aqueles dois deuses no seu Olimpo pareceu durar 2 ou 3 eternidades.
A musica deixou de ter importancia e a dança já era coisa superflua, já há uns instantes que não seguiam qualquer ritmo em particular, a não ser o deles proprios. Foram para um canto onde o som da musica não se fazia sentir tanto e onde os tropeções e encontrões da pista de dança se esbatiam na figura de pessoas que apenas ali estavam para conversar na companhia de um copo e pouco mais faziam que bater o pé ao compasso do ritmo.

- Como te chamas?
- És linda, mas isso deves ouvir dezenas de vezes por dia.
Ela corou um pouco mais, com um sorriso que iluminava aquele pequeno canto do bar, ainda escuro para o resto das pessoas em volta.
- Como te chamas?, voltou a perguntar.
- Desde que te vi que ando com os pés no ar, junto ao tecto. A cabeça nas nuvens e as mãos a quererem chegar a ti, a tentar alcançar as estrelas.
- Mas como te chamas?
-Não sei que nome te dizer. Aquele com quem dançaste ali não costuma ser o “eu” que normalmente reconheço em mim. Nunca fui de fazer aquilo, nem sei ao certo se fui mesmo eu quem esteve ali a dançar contigo. Mas quero sê-lo... para ti.

E beijaram-se outra vez, desta vez um beijo mais longo, menos espontaneo e inesperado mas igualmente sentido, como se de um primeiro beijo se tratasse.
Ela levou-o pela mão para a rua mas ao chegar lá fora ele travou.
- Agora tenho de te mostrar um pouco do meu verdadeiro “eu”.
- Então?
- Sou uma pessoa que precisa de um minimo de certezas. Pode ser estupidez minha, mas sou assim mesmo. Preciso de saber que amanhã não te arrependerias de tudo o que pudesse acontecer hoje. Por isso não posso ir contigo, agora. Foi até agora a noite mais feliz da minha vida, mas vamos ficar por hoje assim, a pensar que os proximos dias e as proximas noites vão ser as melhores que o mundo já viu. E saber que vamos ser o centro de toda a inveja desta cidade, pela felicidade de nos termos encontrado aqui, nesta noite. Encontramo-nos ali, naquele jardim junto à estátua. Amanhã, pelas 3 da tarde, para ti serve?

E apontou na direcção do busto de um qualquer personagem que deveria ter sido importante, mas que não faziam ideia de quem fosse.
Ela fez um ligeiro sorriso, como quem sente uma enorme felicidade de ver que ele se importa. Enlaçou novamente os braços à volta do pescoço dele e beijou-o como nunca tinha beijado ninguém. Assim ficaram abraçados por uns instantes. Não queriam que a noite acabasse, mas foi ali mesmo que se separaram, cada um para seu lado.

No dia seguinte lá estava ele junto ao busto do rei que eles nunca se lembrariam do nome. Com uma singela flor mas na mão, mas com uma imensidão de beijos para lhe entregar, espaçadamente, com a calma de quem tem a vida toda pela frente.
Ali ficou até anoitecer.
Ela nunca apareceu.

(Nelson Gonçalves, 27/10/2006)

Nota: decidi acabar o post por aqui, porque se o post tivesse seguido até onde eu cheguei quando o escrevi... nem sei o que diriam... se é que alguem vai ter paciencia e tempo livre para ler isto tudo...




quinta-feira, outubro 26, 2006

Nem que a vaca torça canivetes


The Muses Urania and Calliope,
pintado por Simon Vouet (1590-1649)


Hoje é aquele dia que está ali mesmo por cima do titulo deste post. Quer isto dizer que é dia de ir a Lisboa ver o concerto dos grandiosos Muse. A gripe melhorou ligeiramente e a tosse faz questão de não me largar. Com sorte venho de lá a tossir sangue. Sem sorte, nem volto de lá. Seja como for, só não vejo este concerto se eles se recusarem a tocar ou se houver alguma catastrofe.

Deixo mais um pequeno exemplo da excelencia destes senhores, no que concerne à criação de musica espectacular.
Soldier's poem, do ultimo CD deles, Black Holes and Revelations. No botão do play ali à direita... MUSE!!!!!


Throw it all away
Lets lose ourselves
Cause theres no one left for us to blame
Its a shame we're all dying
And do you think you deserve your freedom

How could you send us all far away from home
When you know damn well that this is all
I would still lay down my life for you

And do you think you deserve your freedom
No I dont think you do

Theres no justice in the world

Theres no justice in the world

And there never was

(Soldier's poem, Muse)

Comprem o CD, vale mesmo a pena. Aliás, comprem a discografia toda, vale mesmo a pena. Mas não se esqueçam: o que eu digo não se escreve; e gostos cada um tem o seu.




quarta-feira, outubro 25, 2006

A "concurso"

Através do blog da Inha cheguei ao blog da Fresquinha e encontrei um desafio, para enviar a melhor carta de amor. Só para dizer "que sim", escrevi uma coisinha em 5 ou 10 minutos e lá enviei. Aí fica o resultado.


A ti digo-te

A ti digo-te que te amo.
E aquilo que te quero dizer
É que esse amor que reclamo
É daquele que bem se quer

Fazer meu o teu sorrir,
E das flores em teu redor
Com um sopro ver a florir
O mais eterno e puro amor

No teu corpo poder viajar,
No teu olhar ver o horizonte,
E beber no teu suspirar
O meu amor que és tu a fonte.

Vem pintar de azul o céu
E fazer das flores amarelas
O mais belo e fino véu
E nele inventarmos as estrelas.

A ti digo-te que te amo.
Amo-te, que é como quem diz
Que esse amor que de ti reclamo
É só para te fazer feliz.

............Nelson Gonçalves (25/10/2006)

Nota: quando se junta o desemprego à doença, dá normalmente em desgraça. Aqui ficou apenas uma pequena amostra.




...introspecção


Quando perguntaram, a resposta foi:
Bebo para que, no futuro, possam dizer “aquele gajo podia ter sido alguém, na vida”.

...mesmo que não tenham razão.




terça-feira, outubro 24, 2006

Lá fora tem chovido


Há cores que me fazem mal, já há muitos anos. Certas cores de cabelo que me deixam a desejar ser diferente. Certas cores de olhos (ou todas as cores de olhos) que me levam a trilhar caminhos loucos, em fuga ao desespero que se aloja na minha mente. Certas cores de pele, esses tons de pele que tanto me fazem sentir desilusão por mim próprio. Preciso de um mundo de cores novas que ninguem tenha inventado ainda. Preciso que a loucura que habita em mim se liberte do vazio e da solidão, e tome em seus braços novas tonalidades que estes meus olhos ainda não tenham visto, em sonhos anteriores.

Lá fora tem chovido. Cá dentro as gotas de água caem mas é dos meus olhos, secos por dentro mas inundados por fora. Já nem sei se estas lágrimas são consequencia apenas da doença que me devora as entranhas ou se será de outras visões, reais e imaginárias, que presenciei nos ultimos dias e que desejava nunca ter visto.
A tosse explode de dentro de mim como erupções vulcanicas violentas, e não há maneira de rebentar de vez com os meus pulmões, desfazendo-os em mil pedaços.
Pois que expludam, e que os seus estilhaços se espalhem pelo resto do meu corpo, cobrindo de destruição os restantes orgãos que, ao rebentarem também, farão dos meus restos mortais uma carcaça irreconhecivel, sem pés nem cabeça – tal e qual como já é, hoje em dia.




segunda-feira, outubro 23, 2006

Um passeio pela realidade


Este ultimo post deixou-me a pensar na minha eterna inter-relação com o sexo oposto em particular e com as mulheres em geral...
Tenho espelhos em casa, sei que quando alguem quiser imaginar ou desenhar um Adónis basta lembrar-se mim... e imaginar o oposto.
As armas que dizem que tenho devem ser de polvora seca, ou cartuchos de Carnaval... ou então sou sistematicamente desarmado. Talvez as mulheres que me deixam a cabeça à volta tenham nascido já com o antidoto contra essas armas que afirmam que tenho, ou então criaram anticorpos para se defenderem delas, ao tomarem conta da minha existencia.
Meto as cartas na mesa, jogo os meus trunfos e invariavelmente cortam-me as vazas.
No fundo, no fundo, a conclusão a que chego é a de ter uma relação amor/ódio com as mulheres.
Eu amo-as.
Elas odeiam-me...


Nota: A Sharapova parece que deixou o sucesso subir-lhe à cabeça e já não atende o telemovel. A Hantuchova disse que ia tentar vir passar um fim de semana à Ilha de Tavira no Verão de 2010, mas que não prometia nada e para eu não ter esperanças. Resta-me a Charlize Theron, que é sempre tão carinhosa e atenciosa e atende sempre o telefone para dizer que vai deixar de me falar.




domingo, outubro 22, 2006

Interlúdio para notícias do desporto

Sou um amante do desporto, em geral. Quem me conhece sabe que o futebol fez e faz grande parte da minha maneira de ser, do meu passado e da minha maneira de viver certas paixões.
Mas também gosto de outros desportos, pelas mais variadas razões. Hoje, por exemplo, disputou-se a final do Torneio Ténis de Zurique. No quadro feminino Sharapova defrontou Hantuchova, com o resultado a quedar-se por um 6-1, 4-6 e 6-3 para a russa.
No final quem ganhou foi claramente... o público!



Sharapova


Hantuchova




quinta-feira, outubro 19, 2006

Hipotetica conversa em surdina,
num beco escuro sem saída


Limpando o mundo

Preciso de uma arma.
Arranja-me uma arma.
Sei que não terás problemas,
sei que com os teus conhecimentos
no sub-mundo do crime,
arranjas facilmente uma daquelas armas
impossiveis de se saber de onde vieram
ou a quem pertenciam.

Por favor, arranja-me uma arma.
Estou a precisar.
Conheces-me como ninguem.
Sabes que apenas a usarei
para fazer o bem.
Só a usarei para fazer do Mundo
um sitio melhor.

Arranja-me uma arma.
Prometo apontá-la só contra mim!

....................Nelson Gonçalves (19/10/2006)




segunda-feira, outubro 16, 2006

Ditado popular


Tremem-te as mãos e o ar falha-te nos pulmões. As forças fogem-te dos joelhos e um tambor imaginário não pára de te bombardear o cérebro. Entornaste o leite sobre a mesa da cozinha, que começa a pingar para o chão. Os pingos deixam-se lançar no precipicio e explodem ao primeiro contacto com os tacos de madeira. Bem podiam passar por sangue, não fossem estas gotas coloridas pelo branco alvo do leite. O sangue, por seu lado, teima em não jorrar das feridas invisiveis que te vão fazendo, quando não és tu quem as faz em ti.
Ninguém te decifra os gritos de desespero, porque a tua casa respira as ausencias de quem se fez partir por meio de pressas, quem nunca fez por ficar mais que um curto intervalo de tempo em que se repetiam os ultimos sons de um qualquer velho disco riscado. As borboletas que sentias no estomago não sabiam voar, mas sonhavam com o milagre de serem mais que simples lagartas que se arrastam até se fecharem em casulos, à espera que as asas nasçam. Alimentavam a eterna esperança vã da ilusão que se quer real e acabaram por ficar novamente presas ao chão, com o ultimo bater da porta de saída.
As mãos por vezes deixam de tremer, mas só nos pequenos instantes em que passam pela testa, quando os braços estão cruzados e te contorces de raiva ou quando servem de descanso a uma cabeça demasiado cansada de tentar andar erguida. E tu aí nessa cadeira a ver o leite a pingar, sem reacção, sem sequer perder tempo para pensar nisso.
A casa fica demasiado vazia assim, e assim continuará, cada vez mais vazia e cada vez mais labirintica. Ninguem te lê as lágrimas que correm desenfreadas pela face, ninguem te adivinha os pensamentos que acorrem alucinantes à mente. E as lágrimas, essas... diluem-se no leite derramado no chão e ninguem se lembrará delas, a não ser tu. O velho e popular choro sobre leite derramado. O ditado não tem tanto significado quando as lágrimas nada têm que ver com o leite em si.

Arruma-te. Limpa a sujidade em tua volta e a vergonha que te provocas em ti e que te enfeita a cara. Sai para a rua e dá-te ao luxo de comer o teu bolo preferido. Senta-te na tua esplanada predilecta e lê um qualquer livro, por mais reles que seja, mesmo que não tenhas mais companhia para te prender a vontade de viver.
Só porque não é um bom dia para sobreviver não quer dizer que não se viva um pouco que seja.


Nota: quero dedicar este texto à existencia da palavra ficção.




sábado, outubro 14, 2006

Incursão pela velha Albion

Às vezes dou comigo a pensar como gostaria de ter a capacidade de criar musica, podia ser que uma vez por outra saísse alguma coisa engraçada. Quem sabe se este (e outros) até não dava em alguma coisa interessante.



You must be so in love...

Looking for wonders to embrace
Searching for luck, a mere trace
To the map that points your trove
You must be so in love…

So it’s your choice, I guess,
To stray away from this mess.
Then fly like an eagle, like a dove.
You must be so in love…

The world’s your own playground
Recognizing every single sound.
When it all fits like a glove
You must be so in love…

I’m sure there is no doubt
About your reason to shut us out.
When you reach the stars above
You must be so in love…

You must be so in love…
You must be so in love…

...............Nelson Gonçalves (14/10/2006)

Inspirado pela musica Street Spirit, dos Radiohead, sabe-se lá porquê.




sexta-feira, outubro 13, 2006

Hoje era um bom dia para ter sorte...
ou para acontecer algum milagre

Não sei porque carga de água, mas o certo é que a sexta-feira 13, seja de que mês for, é sempre ligada a um certo misticismo e superstições algo absurdas. Eu adoro todas as sextas-feiras 13 (ou não tivesse eu nascido numa, e estou sempre desejoso que o primeiro dia de cada mês calhe a um Domingo, para que o 13 seja numa sexta). E só tenho pena de não ter jogado no EuroMilhõe$, para ganhar e contrariar a crença geral de que "dá azar".





quinta-feira, outubro 12, 2006

Retórica ao ser humano que há em ti


Cada dia que o Sol nasce é uma desilusão. O nascer do Sol tem apenas como unica missão trazer-me à memória a lembrança de que afinal não é a coisa que mais ilumina no Universo.
O brilho reluzente dos diamantes ou do ouro - não é mais que uma mentira pegada pensar que possam ser as coisas mais brilhantes à face da Terra.
A evolução natural da espécie humana para se tornar naquilo que é hoje em dia, a vocalização, o andar erecto, o perder toda a pelugem, a inteligência que o distingue dos demais seres vivos. Há quem diga que foi o início da perdição deste planeta.
Eu digo que foi a única maneira que se encontrou para se chegar ao ser vivo que ilumina tudo em seu redor, que consegue ser brilhante como nem os diamantes conseguem. A natureza teve como único objetivo criar um ser assim, com essa voz, esse corpo, essa postura inimitável ao andar, essa inteligência de fazer inveja aos intitulados génios. Esse ser assim magnífico, como só tu consegues ser.
A evolução do ser humano está completa!




terça-feira, outubro 10, 2006

Sob um céu revoltado


Arrasto-me sobre os azulejos de mármore. Corto-me nas falhas que separam cada um, sinal notório de que não há caminhos sem espinhos.
Os azulejos são vaidosos por natureza, deixam-se maquilhar com o passar dos dias, meses, anos. Pintam-se com as marcas arredondadas feitas pelos sapatos de saltos altos, com as rugas que os grãos de areia fizeram quando foram arrastados pela sola de um qualquer pé. Exibem, orgulhosamente, a intemporal cicatriz profunda deixada pelo cair de um móvel que se fez transportar por ali.
Visto o relógio, para me prender ao tempo e assim não me perder do real. Por vezes aproveito para reparar no tempo que leva um determinado segundo a passar, enquanto um ponteiro maior que os outros se passeia de traço em traço, numa volta infinita, como se esperasse algum motivo que o fizesse parar... no tempo.
O frio mata-me a fome de ser vento. Não gosto, o frio prende-me as amarras ao chão e consome a vontade de me mexer. Este frio que teima em querer invadir o calor que guardo quase religiosamente dentro de mim, para o dia em que alguem o quiser tomar como o seu calor. E não é ao frio que me quero entregar.
Do vento tenho inveja. Inveja, porque não se importa se é quente ou frio, porque pode voar depressa ou devagar sem se preocupar com o que se passa em seu redor. Inveja porque pode voar. Inveja porque o passar do tempo não existe.
Inveja porque é realmente livre.





segunda-feira, outubro 09, 2006

Sem grande coisa para acrescentar


Praia de Faro. Hoje.




domingo, outubro 08, 2006

Musas

Musas. Pessoas especiais, por alguma razão espectaculares, que vieram ao mundo para inspirar outras pessoas a fazer coisas que por natureza não fariam...


Este é o bilhete que me vai levar ao Campo Pequeno, no fim deste mês, ver aquela que é uma das melhores bandas dos nossos tempos, ao vivo. E ao mesmo tempo uma das minhas bandas preferidas, como já deve ter dado para reparar.

A musica que aqui fica, podia muito bem ser uma conversa entre duas personalidades que vivem dentro do mesmo corpo, da mesma cabeça... dá que pensar.
Escape, uma das muitas musicas excelentes que os Muse têm. No botão do play, aí à direita. E com a letra aqui por baixo.

You would say anything
You would try anything
To escape your meaningless
And your insignificance
Youre uncontrolable
And we are unloveable

And I dont want you to think that I care
I never would
I never could
Again

Why cant you just love her?
Why be such a monster?
You bully from a distance
Your brain needs some assistance

But Ill still take all the blame
cause you and me are both one and the same
And its driving me mad
And its driving me mad
Ill take back all the things that I said
I didnt realise I was always talking to the living dead

And I dont want you to think that I care
I never would
I never could
Again

You would say anything
You would try anything
To escape your meaningless
And your insignificance

(Escape, Muse)




sexta-feira, outubro 06, 2006

C.R.A.S.H.


Só esta noite me dei conta que faço parte de um grupo, e nunca me tinha apercebido. Um grupo bem maior do que alguma vez tinha imaginado. Acaba por ser curioso reparar como afinal há tanta gente no mundo que se sente como eu. Eu, que tantas vezes me senti unico e isolado no mundo. Pelo menos em relação a isto posso dizer que há muita gente como eu... sempre me faz sentir mais humano, saber que há mais gente que se sente assim.

Por vezes gosto de me fazer de estupido e imaginar que a vida pode ser mais que isto. Depois, invariavelmente, acabo por admitir que é mesmo assim, que por mais que tente, não consigo mudar o que foi escrito para mim, e tenho de me resignar à minha insignificancia de um ser que tem tantas lacunas e tantas falhas que não deve sonhar muito, para não se deixar consumir no desgosto das evidencias reais.

Dizia eu que o grupo ao qual pertenço é bem vasto, bem mais povoado do que alguma vez pensei. A grande maioria desiste e acaba por se deixar entregar a algo que em tempos achou que nunca seria o seu destino. A felicidade acaba por ser posta de parte em prol de algo que se assemelha muito pouco com o que se desejou, apenas o suficiente para se conseguir seguir em frente dia após dia.
Outros, poucos, ficam agarrados às suas crenças de que merecem ser plenamente felizes, no máximo daquilo que é humanamente possivel, e passam o resto da vida a saborear o amargo travo da solidão existencial, só porque acreditam que a felicidade total e constante é algo pelo qual o ser humano deve lutar... luta inglória esta a que travo, atrevo-me a dizer.
Lutar por amor é como tentar abrir um cofre com uma palhinha. Não se pode ganhar...
Faço parte de um grupo que nunca tinha imaginado que fosse tão numeroso.
Faço parte do C.R.A.S.H.
Faço parte do Clube de Revoltados Apaixonados Sem Hipótese.




quarta-feira, outubro 04, 2006

O raiar do dia adormece os espiritos


Espiritos

Tive-te nos meus braços
por breves instantes.

Saíste da fantasia que era minha,
tornaste-te realidade,
qual fantasma transcendente,
qual espirito bom que atormenta a mente
de quem vive e respira o mal
por todos os poros da pele.

Enquanto tentava abraçar o ar,
fugiste-me dos braços...

No momento em que te queria dar
a vida que em mim parece sobrar...

No momento em que te quis tocar
para além do que a carne permite...

No momento em que as mentes se fundem
e se tornam na entidade divina
que é viver o supremo Amor.

............................Nelson Gonçalves (04/10/2006)




segunda-feira, outubro 02, 2006

Com um pouco de imaginação...


Nem me lembrava da ultima vez que o sol brilhara.
Passei tanto tempo na obscuridade, que a ausencia de linhas, formas e cores tornara-se coisa habitual, tida como normal. As pequenas sombras de tudo o que me rodeava deixaram de existir, porque o que existia agora era uma enorme sombra que encobria tudo. Anos e anos assim, no obscurantismo em que a minha mente obrigou os meus olhos a viverem.

De repente, um raio de luz minimo apareceu. Um pequeno traço milagroso de cor vindo da minuscula janela que abriste para a minha vida. E, aos poucos, esse traço de luz foi crescendo, invadindo aquilo que em tempos fora inerte, sem forma que se pudesse tocar ou definir, silente breu da escuridão. A enorme sombra foi-se dissipando em outras pequenas sombras. Nas sombras de todas as coisas que iam ganhando cor e vida, perante a luz que emanavas.

Foi como um violento mas extraordinário despertar para um maravilhoso mundo novo, que havia desaparecido havia muito tempo e do qual já nem me lembrava que podia existir. Procurei a porta para entrar nessa luz, não queria entrar pela janela sabendo que poderia ser interpretado como um acto de vilanagem. E vilão é coisa que nunca quis ser, principalmente à luz dos teus olhos. Mas a porta estava trancada e a mim nunca me foi facultada a chave para o teu coração.

A ideia de perder a tua luz e do meu mundo voltar à escuridão por tempos indeterminados, levou-me a trilhar caminhos insondaveis, colhido por um quase desespero que me toldava as ideias e que recusava-se a deixar-me pensar.
A total escuridão fazia de mim um cego. No entanto aquela luz cegava-me a mente... a tua luz cegava-me, e como eu adorava aquela cegueira.

Não precisava do meu mundo, nunca precisei. Nunca o quis. Queria e preferia aquele, que me iluminava, que me mostrava as maravilhas que há espalhadas pelo mundo real. Ao ponto de tentar saltar pela janela, depois de me ser negada a chave para a porta principal.
Juntei todas as minhas forças e dei o maior salto que me era possivel, com a maior das convicções de que não seria visto como o vilão em que me estava a tornar.

Mas no ultimo momento, no preciso espaço de tempo em que me preparava para conquistar o primeiro milimetro desse teu mundo, a janela fechou-se... e a escuridão voltou.

E sentei-me às escuras, feito cego em busca dos teus raios de luz... à espera dos teus raios de luz.






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